quarta-feira, 27 de maio de 2015

A culpa

"Está feito!" Cristina proferiu aquelas palavras com mais sentimento do que gostaria.
"Já?" "Isso é otimo!" O homen do outro lado da linha parecia animado.
"Informarei seu progresso ao meu superior,espere novas instruções.

Cristina sentou-se a beira da janela fumando um cigarro. A noite fria e nevoada faziam-na sentir estranhamente confortável. Permaneceu em silêncio observando o moribundo cadáver que outrora fora seu marido.
-Gostaria de entender porque fez isso conosco. O amor é confiança querido, e você foi o mais sacana dos homens. Aceitaria que me traisse com qualquer vagabunda,de qualquer esquina, mas não pude suportar saber que tu vendeu meus sonhos e ideologias.
Explanava e desabafava sua dor com o infeliz cadáver, acendeu outro cigarro.
-Quem de nós é mais monstruoso? Eu matei você,mas entenda, eu não posso morrer! Eles não me deixaram escolha, eu seria presa como cúmplice dos teus crimes! Acha justo? Você sempre foi um filho da puta egoísta! Eu deveria matar você!
Cristina fita o defunto e gargalha.
-Eu já matei!
As gargalhadas seguidas de um choro copioso enchem o quarto. Sentou ao lado do defunto, o rosto banhado em lágrimas e as mão na cabeça. "Meu Deus" o que fiz?
-A culpa é sua! A culpa é toda sua! Eu vou matar você de novo!
Possuida de ódio,tomou a tesoura e passou a golpear violentamente o corpo, o sangue e fluídos  banhavam-lhe o corpo, Cristina afastou-se em prantos, acendeu mais um cigarro, seu ventre doia e o sangue da criança que abortara escorria abundantemente entre as pernas, fumou mais um e mais outro, acabaram-se os cigarros e ela permaneceu ali, imersa no próprio sangue, esperou a morte,ela não veio, Deus não poderia ser tão misericordioso.

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